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A natureza não espera pela burocracia: o descompasso da COP17

A COP17 da biodiversidade terminou na Armênia com um diagnóstico duro: menos da metade das metas globais está no caminho certo. O que falta quando o mundo assina tratados, mas esquece o financiamento.

Por Beatriz CastroRedação QuantaBoo6 min de leitura
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A sensação de que estamos sempre no limite é constante. A 17ª Conferência das Partes (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) terminou na última sexta-feira (30) em Yerevan, na Armênia, com um diagnóstico que mais parece um pedido de socorro protocolar. Dos 192 países signatários, a mensagem que chegou foi de paralisia. Menos da metade das metas nacionais relacionadas ao Marco Global de Kunming-Montreal (GBF, na sigla em inglês) está efetivamente no caminho para ser alcançada. É o tipo de notícia que passa batida no meio de tanto ruído diário, mas que carrega um peso enorme para o futuro do planeta e para o que vamos deixar para as próximas gerações.

O documento final da conferência faz um balanço francamente negativo dos indicadores para o cumprimento das 23 metas de proteção da biodiversidade até 2030, segundo reportagem da Agência Brasil. Não falta apenas vontade política, embora isso seja uma parte considerável do problema. Faltam dados, capacidade de monitoramento dentro dos próprios países e, acima de tudo, dinheiro. A meta ambiciosa de mobilizar 200 bilhões de dólares por ano de todas as fontes até 2030 esbarra em uma realidade muito mais modesta. O financiamento global estimado para a biodiversidade em 2025 fica em algum lugar entre 7,9 e 92,4 bilhões de dólares anuais. É um abismo entre o que se promete nos palcos diplomáticos e o que efetivamente sai do bolso dos governos.

Promessas de papel e florestas de pé

Quando os países se reúnem para assinar tratados internacionais, a esperança é de que aqueles papéis ganhem vida nas florestas, nos rios e no cotidiano das populações. O que a COP17 mostrou, porém, é que a implementação desses acordos esbarra em obstáculos prosaicos e em uma burocracia que engessa a ação. As nações relataram dificuldades em avançar em pontos cruciais, como a redução de espécies exóticas invasoras e a criação de corredores verdes e azuis que conectem áreas de conservação terrestres e marinhas. O Brasil levou para os debates a importância dessa conectividade, mas o reconhecimento global foi de que o avanço nessa área foi mínimo.

Há também um ponto cego que incomoda especialmente quem observa o papel do setor privado na crise ambiental. Pouco se avançou na exigência de que grandes empresas e instituições financeiras divulguem seus impactos e riscos à biodiversidade. A reforma e eliminação de subsídios nocivos à natureza, que teoricamente deveria redirecionar 500 bilhões de dólares, permanece no limbo das boas intenções. A diretora executiva da organização social LACLIMA, Caroline Rocha, colocou o dedo na ferida ao afirmar que a lacuna financeira só vai fechar se a conversa sair dos fundos tradicionais e abraçar de vez o setor privado e os fundos públicos. Em outras palavras, o dinheiro prometido não chega a quem precisa, especialmente nos países menos desenvolvidos e nos pequenos Estados insulares.

Não que tudo seja estático. O relatório destacou alguns avanços reais, como medidas para deter a extinção de espécies e o aperfeiçoamento do manejo sustentável de animais silvestres, com benefícios diretos às populações mais vulneráveis. Também houve progresso em práticas sustentáveis na agricultura e na pesca. Mas esses avanços são desiguais entre os países e sufocados pela escassez crônica de recursos. Na Armênia, anunciaram-se 60 milhões de dólares para o Fundo Global para a Biodiversidade (GBFF, na sigla em inglês). Um valor que soa como uma gota no oceano diante das necessidades apresentadas.

A complexidade que não espera por diplomatas

Resolver a crise da biodiversidade é, no fundo, um problema de ciência aplicada à política e à economia. Exige paciência, método e a capacidade de lidar com variáveis que se entrelaçam de forma imprevisível. Curiosamente, enquanto diplomatas admitiam a insuficiência das ações na Armênia, um cearense de 24 anos chamado Vinícius Ferreira Rodrigues dava uma aula prática sobre como enfrentar problemas de altíssima complexidade. Ele conquistou a medalha de ouro e a terceira melhor nota na categoria universitária da Physics Cup 2026, a copa do mundo de Física, que reuniu 2.165 participantes de 104 países, conforme reportou o g1 Ceará.

O paralelo não é forçado. A competição internacional exige resolver problemas tão difíceis que a maioria dos participantes não consegue responder a nenhum ao final de meses de tentativas. Vinícius resolveu todos os cinco. O quarto problema, considerado o mais desafiador, misturava mecânica lagrangiana, hidrodinâmica, eletrostática e equações diferenciais. Ele contou que a solução exigiu muita pesquisa, paciência e tempo para sintetizar todas as ideias. É exatamente essa mistura de dedicação e rigor científico que falta à resposta global para o meio ambiente. Sabemos quais são as variáveis, do aquecimento global à fragmentação de habitats, mas falta a persistência para sintetizar as soluções e executá-las antes que seja tarde.

O jovem físico, que hoje faz pós-graduação na Universidade de Iowa nos Estados Unidos após se formar em Física Computacional pela Universidade de São Paulo (USP), descobriu sua vocação de uma forma inusitada. Até o 8º ano do ensino fundamental, sua matéria favorita era História. O interesse pelas exatas só ganhou força depois que ele não conseguiu avançar para a fase final da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB). Pouco tempo depois, foi aprovado para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Física (OBF), mesmo achando que sabia pouco. Aquela frustração inicial virou combustível. Em vez de se desanimar, enxergou o desafio e decidiu que, se outros conseguiam, ele também poderia.

Essa virada de chave, de enxergar o obstáculo como um ponto de partida e não como um fim, é exatamente o que o mundo precisa ao olhar para o balanço negativo da COP17. O relatório não pode ser arquivado como mais uma decepção institucional. Ele precisa ser o problema número um da próxima edição. A trajetória de Vinícius na Physics Cup, que começou com um bronze em 2019, passou por uma menção honrosa em 2025 e culminou no ouro em 2026, mostra que a constância é o que separa o fracasso da conquista.

A crise da natureza não vai esperar pela burocracia dos encontros anuais. Enquanto os recursos prometidos são contados em milhões e a necessidade é contada em bilhões, a janela de tempo para 2030 se fecha rapidamente. O talento humano para resolver enigmas complexos existe, como provou o estudante brasileiro ao superar concorrentes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e de instituições indianas. O que ainda falta é transformar essa capacidade técnica em vontade política e, principalmente, em dinheiro na mesa. Que o exemplo de quem não desistiu diante do problema mais difícil inspire quem tem o poder de assinar os cheques que vão proteger o que ainda resta da nossa biodiversidade.

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