O som da fita VHS e o lucro da IA: dois Brasis tecnológicos no mesmo novembro
Enquanto museus digitais preservam barulhos de tecnologias extintas, a inteligência artificial dispara lucros bilionários e cria vagas de trainee no Brasil. O Cetam abre 50 mil vagas gratuitas e mostra que o futuro tech passa pelo interior.

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Há algo curioso acontecendo neste novembro. De um lado, pessoas estão ouvindo o chiado de um modem de internet discada, o clique de uma fita VHS entrando no videocassete e o zumbido de uma calculadora de botão. Do outro, uma empresa de inteligência artificial acaba de anunciar lucro de US$ 1,13 bilhão num trimestre, mais que o dobro do ano anterior. Esses dois mundos parecem não ter nada a ver um com o outro, mas dizem muito sobre o momento em que a tecnologia vive, especialmente no Brasil.
A nostalgia sonora não é bobagem de colecionador. Plataformas como o Conserve The Sound, da Alemanha, e o BigSoundBank mantêm acervos online com áudios de aparelhos que já não fazem parte do cotidiano, segundo reportagem do Canaltech. O apelo é sentimental, mas também reflexivo. Botões físicos deram lugar ao toque na tela, leitores de CD perderam espaço para o streaming e a sensação tátil de usar tecnologia simplesmente desapareceu. Preservar esses sons é uma forma de documentar uma transição que foi rápida demais para ser percebida com calma.
O salto que ninguém esperava (ou será que esperava?)
Do lado oposto do espectro, a Palantir, empresa americana de software e inteligência artificial, registrou no terceiro trimestre de 2026 uma receita de US$ 2,31 bilhões, alta de 96% na comparação anual, superando as expectativas do mercado. O lucro líquido mais que dobrou. Pela primeira vez, a divisão comercial da empresa nos Estados Unidos superou os negócios com o governo americano, o que sugere que a IA deixou de ser uma conversa de laboratório e passou a ser compra concreta de empresas comuns.
Em carta aos acionistas, o CEO Alex Karp descreveu o ritmo de expansão como algo sem precedentes na história econômica recente, atribuindo o crescimento à procura das empresas por maior controle sobre o uso de IA. É uma declaração forte, típica de quem precisa animar investidores, mas os números dão sustentação à fala. A empresa elevou as projeções de receita para 2026 e para o quarto trimestre, ficando acima do consenso dos analistas. O mercado reagiu com alta nas negociações após o fechamento.
O que isso tem a ver com o Brasil? Mais do que parece. Se a IA está se tornando rotina nas empresas americanas, o efeito cascada sobre o mercado brasileiro é inevitável. Não no sentido de que todo mundo vai contratar a Palantir, mas no sentido de que a competência em inteligência artificial vira requisito, não diferencial. E é aí que a outra ponta dessa história fica interessante.
O interior que entra na fila da qualificação
No mesmo novembro em que Wall Street comemora os números da IA, o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) abriu mais de 50 mil vagas em cursos online gratuitos de qualificação profissional. São 41 opções em áreas como tecnologia, gestão, empreendedorismo, sustentabilidade e idiomas. Entre os cursos de tecnologia estão Introdução à Inteligência Artificial, Linguagem de Programação Python, Desenvolvimento de Aplicativos Digitais, Power BI, Excel Avançado e Informática Básica.
Os cursos são autoinstrucionais, sem tutoria, e exigem pelo menos duas horas diárias de dedicação. A certificação é digital e exige aproveitamento mínimo de 60 pontos. As aulas começam em 16 de novembro e vão até 11 de dezembro. É um prazo curto, o que sugere que o objetivo é dar uma base rápida, não formar especialistas. Mas o recado é claro: há demanda por acesso a conhecimento tecnológico fora dos grandes centros, e o poder público está tentando responder a isso.
Alguns cursos da área de informática exigem certificado de conclusão de Informática Básica com carga horária mínima de 60 horas. É uma barreira pequena, mas real. Quem nunca teve contato formal com computadores precisa dar um passo antes de chegar ao Python ou ao Power BI. Isso mostra que, mesmo com a popularização da tecnologia, ainda existe uma camada da população para quem o primeiro degrau não é a IA, é ligar o computador com confiança.
A vaga que prova que o mercado já se move
Enquanto o Cetam abre portas para quem está começando, a Softplan, uma das maiores govtechs (empresas de tecnologia para o setor público) da América Latina, está selecionando estudantes para um programa de trainee focado em IA em Florianópolis. São 10 vagas com salário de R$ 7 mil, contrato CLT por prazo indeterminado e formato híbrido. O programa dura 18 meses e exige que o candidato esteja a partir do quinto semestre da graduação ou tenha se formado há no máximo dois anos.
A seleção inclui provas, um hackathon (maratona de inovação) e entrevistas com lideranças. O candidato precisa apresentar um portfólio com um projeto de IA. Na imersão, o trainee aprende sobre IA generativa aplicada, ferramentas como Claude, automações, prática com dados, metodologias ágeis e prototipação. Cada participante recebe acompanhamento de um executivo ou head da empresa durante todo o processo. As inscrições seguem até 13 de novembro.
O detalhe que mais chama atenção não é o salário, embora R$ 7 mil para um trainee seja um número respeitável. É o fato de que a empresa já espera que o candidato traga um projeto pronto. Não se trata mais de aprender IA na empresa, mas de chegar já com algum nível de familiaridade. O mercado está encurtando o caminho entre a universidade e a prática, e quem não tiver esse portfólio vai ficar de fora da conversa.
É por isso que as duas pontas dessa história precisam ser lidas juntas. O som da fita VHS que alguém decidiu preservar num site alemão e o lucro bilionário da Palantir não são fenômenos isolados. São marcos de uma transição que está acontecendo em ritmo diferente dependendo de onde você está. No Amazonas, 50 mil pessoas estão tentando entrar no primeiro degrau. Em Florianópolis, estudantes já precisam mostrar projetos de IA para conseguir uma vaga. Em Wall Street, a IA já é negócio de bilhões de dólares. O Brasil tecnológico não é um só, e entender essa distância é o primeiro passo para diminuí-la.
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